Seios livres, leves e soltos: Afinal, pode topless no Carnaval?

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Seios livres, leves e soltos: Afinal, pode topless no Carnaval?

Época de muita pegação, azaração, muito beijo na boca… e muita passada de
mão. Quem frequentou bailes de Carnaval (mesmo as matinês) no passado
deve ter muita história para contar. Mas hoje a coisa mudou. As mulheres estão
botando a boca no trombone, brigando por seus direitos em diversos
movimentos feministas pelo mundo afora. E o Carnaval, festa onde o corpo
feminino sempre teve as atenções voltadas a ele, não teria motivos para ficar de
fora.

Nos blocos de rua pelo Brasil, mulheres deixam seus seios gritarem pela
liberdade. Sejam eles pequenos, grandes, firmes ou não. Bonitos ou feios?
Quem os define? Aliás, elas também querem se livrar do padrão de beleza
imposto pela sociedade. “Nossa luta abrange várias demandas. Uma das
motivações é o protagonismo feminino no cenário musical, onde não temos a
mesma visibilidade que os homens”, diz Nara Torres, idealizadora da fanfarra
Sagrada Profana, de Belo Horizonte, onde muitas mulheres saem com os seios
à mostra.

A ideia surgiu em 2015, no contexto da chamada Primavera das Mulheres,
quando milhares saíram às ruas para dar um cala a boca no machismo.
Campanhas como #primeiroassédio ampliaram a discussão sobre temas
feministas.

Musicista e professora, Nara explica que as mulheres do bloco buscam
igualdade, respeito e lutam contra o assédio. “Não importa como a mulher está
vestida, isso não é um convite [ao homem]. Meu corpo, minhas regras”, defende
Nara, que rege 50 ritmistas e 25 sopristas. Entre musicistas, performers e
amigos no apoio, a fanfarra chega a ter 90 pessoas. O cortejo de 2018, em Belo
Horizonte, foi acompanhado por mil foliões.

Pode mostrar ou é crime?
A advogada criminalista Luíza Nagib Eluf explica que não existe uma lei que
criminalize especificamente o topless. “A lei fala de ato obsceno. O topless das
feministas é uma demarcação de direitos políticos e humanos da mulher. Está
protegido pela Constituição. É um protesto contra a dominação masculina”,
explica a especialista.

Segundo a advogada, desde que não haja violência, tudo é permitido no
Carnaval. “Acho lindíssimo esse tipo de protesto. O que existe é a interpretação.
Um policial militar pode levar a pessoa à delegacia, fazer o boletim de
ocorrência, mas ninguém vai ficar preso. Se isso acontecer, chame um
advogado”, alerta a jurista.

Sobre o que seria um possível atentado ao pudor, Luíza explica: “Não há
definição precisa para pudor. O atentado ao pudor é muito subjetivo e depende
do momento histórico e político que estamos vivendo”, diz a doutora, mostrando
apoio às causas feministas: “Somos donas do nosso corpo e não queremos que
ditem nada. Nenhum homem pode exigir que uma mulher tire a roupa nem pode
obrigá-la que coloque”.

Medo do assédio?
Os blocos feministas até dão uma certa segurança à elas, mas inconvenientes
acontecem. “No último cortejo, um amigo nosso, do apoio, viu dois homens
comentando ‘olha que gostosa, que peitinho lindo…’ e fotografando as meninas.
Na hora ele interveio, mas acontece. Infelizmente”, lamenta Nara.

Para Sabrina Cabral, relações públicas que toca caixa no Sagrada Profana, o
assédio vem acompanhando a vida da mulher não somente no período
carnavalesco. “Tenho medo dele! Por isso a necessidade de desmistificar os
mamilos. E eu me sinto segura dentro da fanfarra fazendo topless porque juntas
somos mais e poderosas. É muito emocionante! Sensação de um grito de
liberdade acompanhado a uma reflexão sobre a sociedade machista”, diz
Sabrina.

Dagmar Bedê, também do Sagrada, cita uma frase do palhaço Marcio Libar: “‘É
preciso coragem, pois essa tem o mesmo tamanho do medo’. É isso. O medo
tem de ser do tamanho da coragem. Nem maior nem menor. Está ali, batendo
de frente”, diz a palhaça, artista e produtora cultural.