Praia de Enseada dos Corais, no Cabo de Santo Agostinho em Clima de medo

Pernambuco já registrou 424 assaltos a ônibus este ano
Sobrinho atira em tio durante discussão

Praia de Enseada dos Corais, no Cabo de Santo Agostinho em Clima de medo

Em alguns dos mais bonitos cartões-postais de Pernambuco, destinos de milhares de turistas, o
clima é de medo. Os homicídios registrados no Cabo de Santo Agostinho e em São José da Coroa
Grande, na última semana, evidenciam o avanço da criminalidade e, principalmente, do tráfico de
drogas no Litoral Sul do Estado. Em Enseada dos Corais, no Cabo, cinco pessoas morreram em
menos de 48 horas. Ainda não se sabe se os crimes têm ligação, mas pelo menos quatro mortes
estariam relacionadas ao comércio de entorpecentes.

Quem vive na área, confirma a versão. “Aqui era um bom lugar para morar. De uns três anos para
cá, começou a aparecer todo tipo de gente. Eles são de fora e eu acredito que venham só para
traficar”, afirma o aposentado Severino Bandeira, 62 anos, morador da Vila Esperança, onde quatro
crimes ocorreram no mesmo dia.

Na madrugada da quarta-feira, três jovens foram mortos na Pousada de Dora, enquanto faziam uma
festa em um dos quartos com duas mulheres. As vítimas são Lucas Araújo da Silva Oliveira, 22
anos; Everton Martins de Moura, 28; e um inquilino da pousada, que não teve a identidade
divulgada. Em depoimento, as mulheres contaram que o homem que alugou o quarto teria
envolvimento com outro grupo que ocupava a pousada. Enquanto estavam lá, o rapaz teria saído e
voltado do cômodo vizinho com drogas.

Segundo testemunhas, pelo menos seis homens armados, com coletes da Polícia Civil, invadiram o
local e iniciaram uma troca de tiros. As mulheres foram levadas para outro cômodo durante a
execução. As investigações estão sendo conduzidas pela delegada Caroline Roveri, da Delegacia de
Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

No mesmo dia, um homem identificado como Igor da Silva Mesquita, 21, foi encontrado morto a
poucas quadras da pousada. É possível que as mortes estejam relacionadas e que a vítima tenha
morrido em decorrência do tráfico. “Tudo acontece à luz do dia. Vemos gente envolvida com drogas
usando rádios para se comunicar. Outros ficam nas lajes observando a movimentação. Querem
transformar Pernambuco no Rio de Janeiro”, relatou a vendedora Nely Schabbach, 55, que tem uma
casa de veraneio no local.

No fim da tarde de ontem, outro corpo foi encontrado em Enseada dos Corais, em um matagal às
margens de uma estrada de barro. Segundo a polícia, George de Andrade Lima Rodrigues, 37, era
um líder comunitário que há 10 anos era comerciante na praia e estava desaparecido desde terça
(20). Ele foi sequestrado por quatro homens com farda de policial. A perícia constatou marcas de
tiros na cabeça e um arame enrolado no pescoço de George. O DHPP investiga se o caso está
relacionado aos outros homicídios.

A guerra entre traficantes no Litoral Sul ganhou os noticiários na semana passada, quando um triplo
homicídio e uma chacina envolvendo cinco pessoas aconteceram em São José da Coroa Grande.
De acordo com a Polícia Civil, 11 mortes foram registradas este ano em decorrência da disputa entre
traficantes no município. Desde terça-feira, uma delegacia móvel foi instalada para ajudar nas
investigações. Quatro inquéritos estão em aberto.

A violência decorrente do tráfico faz vítimas em outros pontos do litoral. É o caso da Praia do Paiva,
no Cabo, que atrai surfistas de dentro e fora do Estado. “Todos os dias ouvimos relatos de furtos e
arrombamentos a carros por aqui. A gente pensa que, por ser um local privado, com pagamento de
pedágio, está seguro, mas não está. Não existe policiamento nenhum para tentar acabar com isso”,
denunciou a estudante Victoria Andrade, 18. Na praia, uma placa foi fixada pela Associação Geral da
Reserva do Paiva, avisando que a área é pública e que a gestão da reserva não se responsabiliza
por furtos de veículos ou pertences

Em Gaibu, o clima é de terror. “Não é mais medo, é pânico mesmo. Eu fico apavorada com a
situação. Desde 2014 a criminalidade não para de aumentar. Já vi muito assalto acontecendo aqui,
na beira da praia”, conta a comerciante Lourdes França, 80. Para ela, o turismo caiu muito na região,
afetando o comércio. “A insegurança acaba afastando as pessoas”, lamentou.

De acordo com o comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, que faz a segurança das praias da
região, as ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas têm se tornado rotina. “O tráfico é o
principal responsável por tantas mortes e, mesmo com reforços e a erradicação dos pontos de
venda, sempre aparece alguém de outro lugar montando um novo esquema de venda.”