Por que ninguém quer Robinho, o ex-futuro melhor do mundo em atividade

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Por que ninguém quer Robinho, o ex-futuro melhor do mundo em atividade

No final de 2017, enquanto passava férias nos Estados Unidos, Robinho, 33, foi
lembrado de que poderia começar uma temporada sem clube. Ao seu estilo
desencanado, deu de ombros.

Seria a segunda vez. Após rescindir com o Guangzhou Evergrande, da China, iniciou
2016 à procura de um time. Fechou com o Atlético-MGsemanas depois. Agora a situação
é diferente por causa de condenação por estupro coletivo na Itália.

Robinho está desempregado por não aceitar redução salarial proposta pelo clube
mineiro. A ideia era que ele cortasse seus vencimentos em 50%. De R$ 800 mil para R$
400 mil mensais.

Ao ser vendido pelo Santos ao Real Madrid (ESP) em 2005 por 30 milhões de euros (R$
116,7 milhões em valores atuais), era, segundo ele mesmo, o “futuro melhor jogador do
mundo”. Era o recado que deixava na caixa postal dos amigos. Ao receber telefonemas,
atendia com a frase “aqui é o Robinho Fenômeno”. Estava acostumado a impor sua
vontade aos clubes.

Robinho tem mercado no futebol brasileiro, mas está enrolado no processo em que foi
sentenciado em novembro a nove anos de prisão em primeira instância. Ele recorreu.

“Não vejo problemas para o Robinho conseguir clubes. Temos várias propostas, tanto do
Brasil quanto do exterior. O que eu vejo é a imprensa buscando fazer sensacionalismo
com o caso”, reclama a advogada Marisa Alija, responsável por cuidar dos interesses do
jogador.

A opção mais óbvia seria o Santos, onde explodiu para o futebol com o título brasileiro
de 2002. Foi quando protagonizou o lance que definiu sua carreira. Até hoje ele chama a
si mesmo de “Pedalada”, lembrando o drible sobre Rogério, do Corinthians, na final da
competição.

O Santos ainda tem interesse no atacante, mas vacila diante da possibilidade de nova
condenação. O presidente do clube, José Carlos Peres, quer a contratação, mas pondera:
“Temos projetos de marketing para atrair mais torcida feminina. Isso pode ser
problema. O Robinho é ídolo do clube e gostaríamos de ter um bom relacionamento
com ele.”

Não que o clube tenha receio de que ele seja preso. O Brasil não extradita seus cidadãos
condenados em outros países. O temor é a imagem negativa do caso. Os dirigentes
estudam -mas ainda não apresentaram a ideia- acordo que possa ser rescindido se a
sentença não for mudada.

“O Santos não precisa se preocupar com os problemas pessoais do Robinho. Eles serão
resolvidos”, disse Marisa.

Dorival Júnior tentou fazer o meio-campo para que ele pudesse ir para o São Paulo, mas
a diretoria ficou reticente com a ideia. Ele também foi cogitado no Grêmio.
“Sem chance”, afirmou Odorico Román, demissionário vice-presidente de futebol do
clube gaúcho. Ele esteve cotado no Vasco, mas as conversas não foram adiante.

O São Paulo também avalia que, por mais de R$ 500 mil mensais, o custo de Robinho
poderia não compensar.

Quando era apenas uma promessa das categorias de base santistas, em 2001, ele quase
foi levado para o clube do Morumbi. O que não aconteceu apenas pela intervenção do
ex-volante Zito, então assessor do presidente do Santos, Marcelo Teixeira.

Era época em que tudo era novo para Robinho, então com 17 anos. Na temporada
seguinte, antes da final do Brasileiro, a diretoria lhe deu um reajuste salarial para deixá-
lo “feliz”. Passou a ganhar R$ 3.500 por mês (R$ 8.700 em valores atuais).

FILHO PRÓDIGO
É no Santos que ele desperta as opiniões mais apaixonadas. É o clube que tirou da fila
de 18 anos sem títulos em 2002, mas fez greve para ser vendido para o Real Madrid.

Enquanto jogar futebol, Robinho será uma sombra e espelho para os jogadores
revelados pelo clube paulista. Desde que saiu a primeira vez, apareceram diferentes
“novos Robinhos”. Neymar já foi chamado assim um dia e se espelhava no mestre
quando atuou ao seu lado em 2010. Hoje o superou.

Outros, nem tanto. Victor Andrade, 22, foi um dos que tiveram problemas com as
comparações. Saiu do Santos, passou sem sucesso pelo Benfica e hoje está no Estoril
(ambos de Portugal).

Os defensores de Robinho lembram o papel que teve na Vila Belmiro no início de 2015,
em momento crítico da história recente do clube.

Com o Santos sem dinheiro e jogadores buscando um jeito de sair, Robinho não só ficou
como convenceu colegas de elenco a confiarem na diretoria e permanecerem. Meses
depois, o Santos foi campeão paulista. Logo após o título, ele foi para o Guangzhou
Evergrande.

O ex-presidente Modesto Roma Júnior confessa ter feito oferta de renovação para o
jogador apenas por fazer. Sabia que Robinho não aceitaria: três anos de contrato, R$
250 mil por mês e que o atacante perdoasse a dívida de cerca de R$ 4 milhões que o
clube tinha com ele.

“O Robinho foi fundamental para nós naquele período. Ele foi Santos como muitos não
são. E isso precisa ser valorizado”, disse Roma Júnior.

Vaiado quando o Atlético foi à Vila Belmiro em 2017, Robinho teve reação 100%
condizente com sua personalidade: não deu a menor atenção. Assim como não está
preocupado com sua rara (e possivelmente passageira) condição de desempregado.

Ele se acostumou a conseguir o que deseja. Foi assim que assinou com o Real Madrid e
forçou depois a saída da Espanha. Queria o Chelsea, acabou no Manchester City. Quase
fez um motim de jogadores brasileiros na Inglaterra até ser emprestado para o Santos,
em 2010. Conseguiu transferência para o Milan (ITA) no mesmo ano. Teve a terceira
passagem na Vila entre 2014 e 2015.

A Folha tentou entrevistar Stefano Ammendola, promotor italiano do processo de
estupro coletivo contra o jogador. Não houve resposta até o fechamento desta edição.

Pelos fatos divulgados, o caso aconteceu em 22 de janeiro de 2013, no Sio Café, em
Milão. A vítima foi uma mulher albanesa que não teve o nome revelado. Na época, ela
tinha 22 anos.

A alegação é que Robinho e cinco amigos a intoxicaram com álcool até ela ficar incapaz
de recusar o ato sexual. Eles também foram condenados a pagar 60 mil euros (R$ 233
mil) para a vítima. Alessandro Keller, advogado do atacante, alega no processo que o
sexo foi consentido.

O desgaste era inevitável. Após a sentença, um grupo de torcedoras do Atlético-MG
pendurou faixa em Belo Horizonte dizendo que “um condenado por estupro jogando no
Galo é uma violência contra todas as mulheres.”

INOCENTADO
No início de 2009, ele já havia sido envolvido em caso semelhante ao de agora. Foi
questionado pela polícia a respeito de incidente na boate Spice, em Leeds, na Inglaterra.
Na época, jogava pelo Manchester City.

Uma garota de 18 anos o acusou de abusá-la sexualmente, o que meses depois ficou
provado ter sido uma mentira. Robinho foi inocentado e negou até mesmo ter fornecido
material de DNA para a polícia, ao contrário do que havia sido publicado pela imprensa
britânica.

Era uma época em que ele pensava na Copa do Mundo de 2010, aquela que deveria ser
seu auge. Era o principal atacante da equipe de Dunga eliminada nas quartas de
final diante da Holanda. Anotou dois gols no torneio. No torneio de 2006, era reserva.

Apesar de ter somente 30 anos na época do Mundial de 2014, no Brasil, não teve o nome
cogitado. Sua última convocação foi em janeiro de 2017, para o amistoso contra a
Colômbia. Foi capitão no dia em que completava 33 anos. Falou sobre o sonho de estar
na Copa da Rússia.

Seria a última oportunidade de ser campeão, de justificar que não foi eleito melhor do
mundo, mas venceu com a seleção. A temporada de 2017 discreta no Atlético-MG fez
com que Tite nem precisasse justificar os motivos para não chamá-lo. O treinador não é
perguntado sobre isso.

Craque que parecia destinado ao estrelato mundial há pouco mais de uma década,
Robinho quer acreditar que seus dias de raro desemprego estão contados, apesar do
processo na Itália.