Foi em umas férias de julho, quando estive na casa de meus pais. Eu gosto daquele lugar. É como se ele fosse uma história antiga que eu sempre voltasse a ler.
Fico observando as pessoas que passam pela mesma estrada por onde brinquei na infância, elas não me conhecem, algumas delas eu nunca vi, mas sei de onde vêm, conheço bem aqueles caminhos, até posso adivinhar para onde estão indo. O lugar é bem pequeno e bem desenhado.
Estando lá, eu me desligo da vida atribulada deste lugar em que vivo, abandono a agenda que me escraviza, desligo o despertador irritante que me acorda às cinco e meia da manhã, leio até me arder os olhos as estórias de Guimarães Rosa e não me preocupo com o café da manhã que certamente estará muito fresco até às dez, quando me despertar. Isso é mesmo bom.
Naquele dia frio de julho, depois do jantar sempre farto e bem temperado, meus pais começaram uma nova discussão, o que já era tão comum entre eles há anos. Nem eles mesmos se lembrariam dos motivos, se hoje eu fosse perguntar. Enfim, só me lembro de que a eletricidade tinha vindo abaixo. Tudo estava um breu e minha mãe procurava umas velas que já não existiam mais. Talvez tenha sido por isso que a briga começou.
Naquela troca de acusações, um sentou-se na varanda, no fundo da casa; outro foi para frente, na garagem, de maneira que eu me arranjei no meio do caminho, sentando-me embaixo de um pé de romã, cujas frutas grandes e maduras agora se confundiam com as folhas no escuro da noite.
Como a discussão teimava em continuar, eu resolvi interferir de uma forma diferente. Então chamei a atenção de ambos para uma estória, que a princípio não revelei que era literatura, nem citei Guimarães Rosa.
Dessa forma, comecei: “Eu conheci um homem que se chamava Augusto Esteves Matraga das Pindaíbas”, e minha mãe logo retrucou: “devia ser ladrão de cavalos, como os parentes de seu pai...”, e ria; ele, meu pai, na varanda dos fundos, tentava defender-se: “nunca tive ladrão na família, nem bebuns como na sua...” Eu via que aquilo ia ser difícil.
A previsão era de uns quarenta minutos no escuro, mas fui insistente e continuei: “era um homem cruel, matador e injusto, no interior de Minas”. Eles agora silenciavam. Aproveitei a trégua e organizei melhor a trama. Fui narrando as peripécias de Augusto Matraga, a sua vida de crimes, denunciando os maus tratos contra a esposa e a filhinha Mimita; eu descrevia os lugares, imitava as falas dos cangaceiros.
A trama foi tomando corpo na noite escura e eu experimentava uma sensação fantástica. Agora via melhor os personagens: o fazendeiro Major Consilva mandando surrar Augusto; o casal de negros, Quitéria e Sarapião cuidando das feridas de Matraga; o padre dizendo a ele: “Augusto, cada um tem sua hora e sua vez e você há de ter a sua”; a tentação que se concretizava no feroz cangaceiro Joãozinho Bem-Bem, ao convidar Matraga para voltar à vida de crimes...
Tudo aquilo era fascinante, porque eu contava no escuro, no silêncio, mas mesmo assim tudo era colorido e cheio de sons que vinham das armas dos cangaceiros, do pisotear de seus cavalos no interior de Minas. De vez em quando, um dos dois ali sentados fazia uma interferência para rir, ou comentar sobre a valentia do tal Joãozinho Bem-Bem.
E foram quarenta minutos incríveis para eles. Eu não me tinha dado conta de que, enquanto narrava essa grande aventura, meus pais foram se aproximando com as cadeiras, cada um vinha de seu lado da varanda e chegavam mais perto. Até que finalizei com o grande duelo entre os protagonistas.
A luz voltara, como se tivesse sido encerrado o espetáculo. A discussão se dissipara e, por toda a semana, aquela novela foi relembrada com entusiasmo, como se fosse verdadeira; uma grande verdade na noite escura do meu interior.